A TRANSCULTURALIZAÇÃO DO IAGÉ E A EXPONENCIAL DO SABER editorial por Eduardo Bayer (1)
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Fica lá, bem justaposta à Linha do Equador, no vale do Rio Piraparaná, no nordeste colombiano, a mítica Rocha de Nyi. Ancestralmente sagrada para os macunas, barasanas, tatuyos e taiwanos, e registrada por uma das expedições do sábio Richard Evans Schultes em 1943 naquela região próxima ao hoje Parque Nacional do Apaporis (2), sobre essa grande pedra de granito se encontra o petroglifo que comemora a visita do Pai Sol quando pela primeira vez deu o iagé aos homens. Embora aparentemente não seja este o primitivo centro de dispersão da cultura do iagé/ayahuasca no continente, e sim uma região mais ao sul da Colômbia, no piemonte andino-amazônico, podemos considerar a Rocha de Nyi um marco histórico da presença dessa fértil cultura, hoje nomeada enteogênica, no contexto pré-colombiano. Para os cientistas ocidentais, o iagé começou a ser reconhecido a partir da presença do inglês Alfred Russell Wallace na festa tukano do Jurupari no Rio Uaupés, no Alto Rio Negro, em 1852. Wallace foi o primeiro ocidental a presenciar aqueles ritos de iniciação e recordação, e o primeiro a compreende-los mal, pois admirando o som das flautas e trombetas sagradas declarou que faziam “uma música diabólica”. Seis meses depois, em novembro daquele ano, é que seu colega Richard Spruce chegou à aldeia de Ipanoré, e na maloca de Urubucoará assistiu a cerimônia do culto jurupari, curioso de conhecer a planta utilizada na bebida do “kapi” (que erroneamente grafaria “ caapi ”, nome tupi-guarani para a classe das gramíneas). Escreveu: “ Os brancos que tomaram caapi na forma apropriada coincidem em seus relatos sobre as sensações obtidas sob seu efeito. A vista se altera e diante dos olhos passam rapidamente visões onde parecem combinar-se tudo o que viram ou leram sobre o esplêndido e o magnífico .” Desafortunadamente Spruce não chegou a provar da bebida ritual, por já estar embriagado pelo “caxiri” (cerveja de macaxeira), mas no dia seguinte se dedicou a pesquisar a identidade botânica do seu principal componente, o cipó que chamaria Banisteria caapi . Ansioso por determinar os componentes químicos da mesma, despachou em março de 1853 uma coleção de ramas do cipó para a Inglaterra, a qual ao ser aberta no Jardim de Kew foi considerada perdida, por estar descomposta pelo mofo. Em 1969 foi grande a surpresa quando Schultes, devotado seguidor de Spruce, após haver visitado a mesma região, teve a curiosidade de mandar analisar o material recolhido por este mais de cem anos antes, e se descobriu que os pedaços de cipó ainda conservavam a potência de seus componentes químicos. Chegamos no século 21 com a cultura do iagé/ayahuasca igualmente demonstrando cada vez mais uma insuspeita vitalidade, não apenas conservada na tradição xamânica das populações autóctones da Amazônia Ocidental, mas também interatuando em outras frentes culturais do mundo globalizado tanto como motor de uma re-leitura do Cristianismo a partir de suas origens igualmente xamânicas, quanto como fonte de sabedoria para a Filosofia pós-moderna. A abertura dessas novas fronteiras se combinando com a atividade centrípeta de preservação das culturas tradicionais nos incitam a uma inovadora perspectiva de pensamento ainda a buscar palavras para expressar-se na hoje informatizada Galáxia de Guttenberg. Afinal, como comenta Victor Leonardi em “Entre Árvores e Esquecimentos” (3), ainda estamos por assimilar que “ Os homens brancos não são os únicos portadores da verdade. Nem são as vanguardas da evolução! Nenhum povo pode ser apresentado como a encarnação do verbo (divino ou natural), essa é uma ressalva que deve hoje ser feita em relação às teorias da história... ” Assim, falar em “fossilização” com relação à permanência das tradições é mera figura de retórica de quem não compreende que enquanto cultura viva, tal qual árvore da ciência a ayahuasca não se expande apenas em direção de suas ramas mas também e necessariamente em direção de suas raízes. Ajudar a compreender-nos nessa multiplicidade cultural, onde o iagé vem atuando transculturalmente em sua verdadeira exponencial de Saber, é o intento dessa revista que editamos para manifestar tudo o quanto de proveitoso esse conhecimento e re-conhecimento das melhores potencialidades do ser humano pode sempre nos trazer. Estamos aqui a nos somar para multiplicar: como dizia o poeta, “ actum nihil dicitur cum aliquid superest ad agendum ”, ou melhor expressando - “nada se diz feito quando resta alguma coisa a fazer”.
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(1) Eduardo Bayer Neto é funcionário da Fundação Cultural do Estado do Acre, atualmente Fundação Elias Mansour, desde 1988, tendo participado da elaboração da primeira exposição permanente da Cultura do Santo Daime, no Museu da Borracha em Rio Branco. A partir desse labor na Historiografia da Cultura da Ayahuasca, constituiu um projeto para um futuro Museu Virtual da Ayahuasca, para o qual a criação da presente revista é um primeiro passo. Escritor, vídeo-documentarista, e também engenheiro florestal, é desde o ano 2001 um dos ativistas do grupo de notícias “União do Santo Daime” no sítio do “yahoogrupos” brasileiro.
(2) DAVIS, Wade. “ El Rio – Exploraciones y Descubrimientos en la Selva Amazónica ”. Trad: Nicolas Suescún. Bogotá, Fondo de Cultura Económica, 2004. 639 p.
(3) LEONARDI, Victor. “ Entre Árvores e Esquecimentos – História Social nos Sertões do Brasil ”. Brasília, Editora UnB, 1996. 431 p.